Alguns estimam que é um estratagema já utilizado no seu governo anterior para buscar uma negociação, ou seja, no início coloca-se a outra parte na defensiva para então abrir o diálogo. Por fim, outra justificativa atribuída é estabelecer o xadrez geopolítico com aliados e países considerados “inimigos” ao elevar o tom.
E é aqui que essa maneira de governar está impactando diretamente os investimentos em IA em 2025, principalmente, em relação à China, claramente a grande ameaça para a hegemonia dos EUA. Com o aumento das tarifas para a importação de itens chineses nos EUA, com destaque no segmento de tecnologia, empresas americanas estão buscando formas de transferir capacidade produtiva para não sofrer excessivamente com o inevitável incremento dos preços de seus produtos. Vale lembrar que uma série de restrições já haviam sido impostas durante o governo Biden, como a proibição da exportação de certos chips, como os GPUs de última geração da Nvidia para a China.
Além desse contexto das tarifas, é preciso considerar a aproximação das empresas de tecnologia do governo Trump tendo como maior símbolo a participação efetiva de Elon Musk como líder do Departamento de Eficiência Governamental (Doge). Posto tudo isso, fica mais clara a razão por trás dos gigantescos investimentos em IA anunciados desde o início do ano. O primeiro grande anúncio foi o “Project Stargate” com valor total de 500 bilhões de dólares em um consórcio liderado pela OpenAI com participação do SoftBank (Japão) além da Oracle, Nvidia, Arm e Microsoft.
O projeto prevê a construção de uma série de datacenters e infraestrutura para IA nos EUA. Para colocar em perspectiva, o investimento representa 23% do PIB do Brasil no ano de 2023. Elon Musk chegou a questionar se as empresas envolvidas de fato contavam com tanto capital, se envolvendo em uma troca de farpas com Sam Altman da OpenAI, que prontamente rebateu e convidou Musk para visitar as primeiras instalações da iniciativa. Menos de um mês depois do anúncio do “Project Stargate” foi a Apple que roubou as atenções.
A empresa anunciou que investirá nos próximos 4 anos o mesmo valor – 500 bilhões de dólares. Projeta-se que mais de 20.000 postos de trabalho serão criados e uma nova fábrica construída na cidade de Houston, no Texas. Um ponto que merece atenção é que finalmente estamos vendo os estoques de capital das Big Techs ganhando uma destinação – a corrida da IA generativa. Nos últimos anos, várias empresas de tecnologia enfrentaram um “problema” paradoxal: grande acúmulo de reservas financeiras em virtude de sua excelente performance, mas, sem uma destinação clara para futuros investimentos, trazendo inclusive preocupação para seus acionistas.
Em resumo, estamos assistindo um fenômeno de reversão em alguma medida da busca pela globalização. Parte dessa mudança é consequência direta da pandemia, onde ficou claro que para inúmeros produtos e setores havia uma enorme concentração na produção, impossibilidade de rápida expansão (fábricas levam anos para serem construídas e demandam profissionais altamente especializados) gerando uma perigosa dependência, basta lembrar da crise de escassez de chips que gerou inflação e falta de estoques em toda a cadeira de tecnologia por anos.
Fonte: IG